FALSO HORIZONTE | Capítulo 3

FH Oficial

UMA NOVELA DE PRISCILA BORGES E YURI NEVES

228-copia-copia-6-copia

Tempo-10

 

 

CENA 01. RANCHO DO CÉSAR/SUÍTE PRINCIPAL/INTERIOR/NOITE:

Marcos encara a parteira, perplexo. Ele senta na cama ao lado da Lúcia.

Marcos    – Como assim? O que aconteceu?

Parteira  – Eclampsia. (pausa) Não há nada a fazer.

Marcos    – Como não?

Parteira  – Não há, se estivéssemos no hospital (pausa) talvez, mas não aqui. Ela estava fraca demais, eu errei.

Marcos    – Aí deus!

Parteira  – É melhor você ir falar com o César, eu preciso cuidar do bebê.

Ele concorda. Marcos dá o bebê pra parteira e sai do quarto.

 

CENA 02. RANCHO DO CÉSAR/SALA DE ESTAR/INTERIOR/NOITE:

César está andando de um lado pro outro, nervoso. Marcos desce as escadas e se aproxima.

César     – (sorrindo) O que foi? É um menino? (sério) O que aconteceu?

Marcos    – É um menino, César.

César     – Um menino? É um menino, porra! (sério) Que cara é essa, Marcos?

Marcos    – O bebê está bem, a parteira está cuidando dele. Mas a Lúcia/

César     – (corta) Não! Não! Não me diga que… não! Não pode ser!

Marcos    – Ela faleceu, César. (pausa) Eu sinto muito.

César     – Não é possível! Não! Nãaaaaaaao! (grita)

Marcos    – Eclampsia. A parteira disse que ela estava fraca demais e que não podia fazer nada.

César     – (começa a chorar) Não, deus! Não pode ser!

Ele desata a chorar. Marcos o abraça e César retribui, desabando.

 

CENA 03. CEMITÉRIO/INTERIOR/DIA:

Amanhece.

O caixão sendo posto dentro da cova. Algumas pessoas vestidas de preto por perto, César e Marcos entre essas pessoas.

 

CENA 04. RANCHO DO CÉSAR/COZINHA/INTERIOR/DIA:

Marcos está lavando a louça. César entra na cozinha e se aproxima.

César     – Eu achei que você já tivesse ido embora.

Marcos    – Não, eu sei que você não sabe cozinhar então eu fiz o almoço e tem bastante pra janta também. (pausa) Eu tenho que ir, se quiser ajuda amanhã é só chamar.

César     – Eu vou chamar.

Marcos    – E o meninão da família?

César     – Ele está descansando. (pausa) Eu não sei se vou saber criar ele sozinho.

Marcos    – Você não está sozinho. Eu estou aqui e sei que a Lúcia também, de alguma forma, ela está.

Ele acaba de lavar a louça e ia saindo. César pega o braço dele e eles se encaram.

César     – Obrigado (pausa) por tudo o que você está fazendo por mim e pelo Lauro.

Marcos    – Lauro? É um bom nome, acho que a Lúcia ia gostar.

César     – Ela ia sim, é o nome que ela queria. (pausa) Mas sério, obrigado.

Marcos    – Não é nada. Eu tenho que ir agora.

Marcos sai da casa.

 

CENA 05. RANCHO DO PERSEU/SALA DE ESTAR/INTERIOR/DIA:

Perseu está sentado no sofá, bebendo. Marcos entra e se aproxima.

Marcos    – Sabe que horas são, pai? O senhor está perdendo a noção! Não são nem meio-dia e já está bebendo.

Perseu    – Não encha a porra do meu saco, Marcos. é igualzinho a sua mãe, um chato!

Marcos    – Minha mãe é o motivo disso tudo? O senhor destruiu a nossa família.

Perseu    – Eu? Ela que me abandonou, Marcos, ela que nos abandonou.

Marcos    – Depois de você agredir ela diariamente.

Perseu    – Eu acho que ela tem nos visitado a noite.

Marcos    – O que?

Perseu    – Eu escutei passos no campo a noite e eu acho que ela.

Marcos    – E porque a mamãe ia ficar andando pelo campo de noite?

Perseu    – Pra me assustar. Ela quer a minha ruína!

Marcos    – O senhor está maluco!

Perseu    – Cala a boca! (pausa) E o outro, o vizinho?

Marcos    – O César está bem na medida do possível.

Perseu não diz nada, ele continua bebendo. Marcos bufa e sobe as escadas.

 

CENA 06. EXTERNA. DIA/NOITE:

Anoitece.

A chuva cai, carros na rua. Pessoas fugindo da chuva, o mato molhando.

 

CENA 07. RANCHO DO CÉSAR/SUÍTE PRINCIPAL/INTERIOR/NOITE:

César está deitado na cama, dormindo. O bebê começa a chorar e ele acorda, resmungando.

César     – Droga!

Ele levanta da cama e caminha até o berço. Ele pega o bebê e tenta acalmá-lo, em vão.

César     – O que você quer? Eu não sei o que você quer, Lauro.

Ele continua tentando, não conseguindo.

 

CENA 08. RANCHO DO PERSEU/SALA DE ESTAR/INTERIOR/NOITE:

O telefone tocando. Marcos desce as escadas e se aproxima, atendendo.

Marcos    – Seja lá quem esteja ligando, já passou da meia-noite.

César     – Desculpa, Marcos, eu sei. Eu preciso de ajuda com o Lauro.

Marcos    – O que houve?

César     – Eu não sei, ele está chorando e eu não sei o que fazer, não sei o que ele quer.

Marcos    – Eu vou pegar a capa de chuva e estou indo.

Marcos desliga e sobe as escadas.

 

CENA 09. RANCHO DO PERSEU/SUÍTE PRINCIPAL/INTERIOR/NOITE:

O barulho da porta batendo acorda o Perseu. Ele levanta, confuso.

Perseu    – Marília? É a puta da Marília! Eu sabia.

Ele pega a espingarda que estava debaixo da cama e sai correndo.

 

CENA 10. RANCHO DO CÉSAR/SALA DE ESTAR/INTERIOR/NOITE:

César está esperando frente a porta. Marcos entra usando uma capa de chuva toda molhada.

César     – Obrigado! Ele não para de chorar, não sei mais o que fazer.

Marcos    – Eu vou subir.

César     – A capa, me dá a capa.

Marcos tira a capa e entrega ao César. O primeiro sobe as escadas.

 

CENA 11. RANCHO DO CÉSAR/SUÍTE PRINCIPAL/INTERIOR/NOITE:

Marcos com o bebê no colo, ele já não chora mais. César olhando.

Marcos    – Ele está quase dormindo.

César     – Obrigado, sério, muito obrigado por tudo.

Marcos    – Tudo bem, ele só estava com fome, só isso.

César     – Você falando parece tão fácil, mas eu achei que ele fosse morrer de tanto chorar.

Marcos    – Geralmente quando ele acordar de madrugada é porque está com fome, mas pode ser que a fralda precise ser trocada.

César     – Entendi, obrigado. E desculpa ter te tirado de casa nessa chuva.

Marcos    – Tudo bem, César. Eu disse que você poderia me chamar a qualquer hora.

César     – A Lúcia vai fazer falta.

Marcos    – Eu sei que vai, eu sinto falta dela, das conversas com ela.

César     – Eu também.

Marcos    – Ele dormiu. É melhor nós descermos.

Marcos bota o bebê no berço e sai. César vai logo atrás.

 

CENA 12. CAMPO/EXTERIOR/NOITE:

Perseu andando pelo campo na chuva. Ele está armado e apontando pra vários lugares. Ele está se afastando a sua casa e se aproximando da casa do César.

Perseu    – Será que a vadia foi se esconder na casa do César?

Ele se segue se aproximando da casa do César, olhando pra vários lugares.

 

CENA 13. RANCHO DO CÉSAR/SALA DE ESTAR/INTERIOR/NOITE:

Marcos e César sentam no sofá e eles se encaram. Marcos sorri.

Marcos    – Eu sei que já falei isso, mas eu quero deixar claro: eu estou aqui para te ajudar.

César     – Eu sei e obrigado, mas eu não quero te acordar de madrugada pedindo ajuda toda vez que o Lauro chorar.

Marcos    – Não tem problema me chamar, pode me chamar a hora que for. Eu venho!

César     – Obrigado por tudo.

Marcos    – Não é nada já disse.

Perseu se aproxima da janela e vê os dois sentados, juntos.

Marcos    – Eu tenho que ir, agora. Boa noite e qualquer coisa, já sabe.

Ele levanta, mas o César segura a mão dele. Eles se encaram. Perseu olha a cena.

César     – Eu estava pensando (pausa) quer ser o padrinho do Lauro?

Marcos    – É claro que sim.

César sorri e levanta. Eles se abraçam. Perseu engatilha a arma, olhando.

 

CENA 14. RANCHO DO PERSEU/SALA DE ESTAR/INTERIOR/NOITE:

Marcos entra na sala, tira a capa de chuva e quando ia subir a escada se depara com o Perseu apontando a arma pra ele.

Marcos    – Pai?

Perseu    – Eu estava certo. Eu sempre estive certo! A sua mãe lhe criou mal, ela te criou como uma menininha!

Marcos    – Pai, o que está acontecendo? Baixa essa arma.

Perseu    – Eu vi, Marcos. Eu escutei um barulho estranho e fui ver pra ver se era a sua mãe, mas não era ela. Era você!

Marcos    – O que o senhor está falando? Baixa isso por deus!

Perseu    – Esse tempo todo… todos os barulhos a noite no campo eu achava que era a sua mãe, era você com o seu namoradinho de merda.

Marcos    – O que? Pai eu não namoro ninguém, isso é loucura!

Perseu    – O César, Marcos. Ele é seu namorado? Viadinho de merda!

Marcos    – Ele não é o meu namorado, ele ama a Lúcia e sempre vai amar a Lúcia.

Perseu    – É melhor você parar com esse teatro porque eu vi. Eu vi você se pegando com o César.

Marcos    – O senhor claramente enlouqueceu.

Perseu    – Eu não admito isso! Filho meu não pode ser viado! Você vai virar homem, querendo ou não.

Marcos    – (ri) Eu não sei o que você viu, mas eu e o César não somos namorados. (pausa) E eu sou homem, pai, mesmo gostando de outro homem eu continuo sendo homem.

Perseu    – Homem que ama outro homem não é homem. É viado! É pecador! É sujo!

Marcos    – E você acha mesmo que eu vou deixar de gostar de outro cara porque você está me ameaçando?

Perseu    – Acho não, eu tenho certeza porque senão… eu te mato!

Perseu larga a arma e se aproxima do Marcos que recua. Perseu joga o filho na parede e dá um soco na barriga dele. Marcos tenta se defender, não consegue, Perseu dá um soco no rosto do Marcos. Ele cai.

Perseu    – Levanta!

Marcos    – (sem forças) Pai, para, por favor, para.

Perseu    – Levanta seu merda! Levanta senão vai ser pior. Levanta!

Marcos levanta, com dificuldade. Perseu dá outro soco no rosto de dele, e outro na barriga e um chute na perna. Marcos cai novamente e Perseu continua chutando ele.

Perseu    – É isso que você merece! É isso seu viado!

Marcos    – (chora) Pai, por favor.

Perseu    – Para de chorar! Viado! Nojento!

Ele dá mais um chute e se afasta. Perseu ri e começa a subir as escadas. Marcos se arrasta pelo chão até a espingarda. Ele levanta, com muita dificuldade, e aponta a arma pro pai.

Marcos    – Pai!

Perseu    – (olha) Vai fazer o que? Viado nojento!

Perseu começa a ri. Marcos engatilha a arma e atira na barriga do Perseu que cai.

 

FIM DO CAPÍTULO

 

Escrita por

Priscila Borges

Yuri Neves

Direção

Allan Sab

cbzMni06ehPNGqA8TwlPCw_r

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s