FALSO HORIZONTE | Primeiro Capítulo

FH Oficial

UMA NOVELA DE PRISCILA BORGES E YURI NEVES

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CENA 01. RANCHO DO CÉSAR/PASTO/EXTERIOR/DIA:

Ilhabela – Ano de 1995

Interior da Bahia

 

Bois, vacas e bezerros em seus cercadinhos, se alimentado. Um homem andando frente a esses cercados, indo em direção a uma casa.

 

CENA 02. RANCHO DO CÉSAR/COZINHA/INTERIOR/DIA:

O mesmo homem, César, – alto, bonito, caucasiano – entra na cozinha. Ele senta numa cadeira e CÂM mostra uma mulher, Lúcia, – bonita, cabelos pretos e pele clara – cozinhando.

Lúcia     – Bom dia, amor.

César     – Bom dia. Eu estou muito feliz, a produção de leite hoje foi excelente.

Lúcia     – Isso é ótimo! (pausa) Vai na cidade que horas?

César     – Daqui a pouco. Está fazendo o que de bom aí?

Lúcia     – Só uma comidinha. O Marcos está vindo pra me ajudar com a sobremesa.

César     – Ele anda sumido.

Lúcia     – É ciúmes.

César     – Ciúmes? Não sabia que o Marcos gostava de você.

Lúcia     – Não é de mim que ele tem ciúmes, é de você.

César     – Não fala besteira! Eu sou sujeito homem.

Lúcia     – Eu sei amor, mas isso não muda o fato dele gostar de você.

César     – Para com esse papo!

Ele levanta, a beija e sai da cozinha.

 

CENA 03. RANCHO DO PERSEU/SALA DE ESTAR/INTERIOR/DIA:

Uma mulher, Marília, – cabelos pretos, bonita e pele clara – está sentada, lendo jornal. Um homem, Marcos, – bonito, cabelos pretos e pele clara – desce as escadas.

Marcos – Estou indo no rancho do César.

Marília   – Não é pra voltar tarde hein. (olha pra ele) Está lindo!

Marcos    – Obrigado. E o papai?

Marília   – Chegou tarde, bêbado, e ainda está dormindo. Mas eu preciso acordá-lo.

Marcos    – Toma cuidado com ele, mãe. Ele não está bem e isso anda machucando você.

Marília   – Eu estou bem, filho.

Marcos    – Não está, mãe. Eu sei. Ontem mesmo estava com o braço todo roxo.

Marília   – Eu caí!

Marcos    – Eu acreditava nisso antigamente, mas não hoje. Eu sei o que ele faz contigo e me dói não poder fazer nada.

Marília   – Eu sei, filho. Mas eu estou bem, não se preocupa comigo.

Ele se inclina e beija o rosto da mãe. Marília retribui o beijo e ele sai.

 

CENA 04. RANCHO DO CÉSAR/FRENTE À CASA/INTERIOR/DIA:

César está sentada frente à casa, fumando. Marcos se aproxima dele.

Marcos    – Bom dia, César.

César     – Bom dia.

Marcos    – A Lúcia está aí? Eu vou ajudá-la na sobremesa.

César     – Ela está na cozinha.

Marcos    – Claro. (pausa) Está tudo bem? Está estranho.

César     – Está tudo ótimo.

Marcos, estranhando, entra na casa. César continua fumando.

 

CENA 05. RANCHO DO PERSEU/SUÍTE PRINCIPAL/INTERIOR/DIA:

Um homem, Perseu, – cabelos brancos, pele clara – está deitado na cama, dormindo. Marília entra e se aproxima.

Marília   – Perseu!

Perseu    – (sonolento) O que foi?

Marília   – Já passou da dez, precisa ir na cidade entregar as carnes.

Perseu    – (sonolento) Você não gosta de ficar andando pra lá e pra cá? Vá você!

Marília   – Eu gosto? Você está chegando pela manhã todos os dias. Eu nem durmo preocupada contigo, Perseu.

Perseu    – (sonolento) Eu sou homem e tenho as minhas necessidades. E eu nunca te pedi pra me esperar.

Marília   – Mas eu me preocupo/

Perseu    – (corta/grita) Chega! Eu acordei! Estou indo na cidade.

Marília   – Perseu/

Perseu    – (corta) O que é, caramba?

Marília   – Nada não.

Ela sai do quarto, cabisbaixa.

 

CENA 06. RANCHO DO PERSEU/CORREDOR/INTERIOR/DIA:

Marília sai do quarto. Ela encosta na parede e desata a chorar, atordoada.

Marília   – (chorando) Eu não aguento mais! Eu… aí meu deus! Eu não posso mais!

Ela limpas as lágrimas e sai do corredor, triste e cabisbaixa.

 

CENA 07. RANCHO DO CÉSAR/COZINHA/INTERIOR/DIA:

Lúcia está cozinhando. Marcos entra e se aproxima dela.

Lúcia     – Marcos! Saudades de você, não vem mais aqui.

Marcos    – É, eu precisava ficar mais tempo em casa ao lado dos meus pais.

Lúcia     – É claro sim. Eu sinto saudade dos meus pais todos os dias.

Marcos    – O que aconteceu com o César? Isso tem a ver com a produção de leite?

Lúcia     – Não, não. Está tudo bem com a produção. Ele está ótimo.

Marcos    – Então é só comigo. Ele quase nem olhou na minha cara.

Lúcia     – Aí deus! Eu disse a ele que você andou sumido porque você gosta dele, deve ser por isso.

Marcos    – Porque você disse isso? Isso não é verdade!

Lúcia     – É sim e todo mundo sabe, menos o César porque ele é homem.

Marcos    – Lúcia, eu/

Lúcia     – (corta) Está tudo bem, Marcos. Eu sei que o César é bonito e que ele vai atrair olhares.

Marcos    – Mas eu sou seu amigo, não deveria gostar dele.

Lúcia     – Então trate de esquecer ele e eu digo isso pro seu bem: ele nunca vai te olhar desse jeito.

Marcos    – Eu sei e vou fazer isso.

Lúcia     – Ótimo! Agora me ajuda a fazer a sobremesa, não faço ideia de como fazer isso!

Marcos começa a ajudar a Lúcia. Eles brincam, riem e conversam em off.

 

CENA 08. RANCHO DO CÉSAR/SALA DA JANTAR/INTERIOR/TARDE:

Começo de tarde.

Lúcia e Marcos estão servindo a mesa. César está sentado nela.

Lúcia     – Está uma delícia, amor. E depois ainda tem uma sobremesa feita pelo Marcos.

Marcos    – E pela Lúcia também. Você também ajudou.

Lúcia     – Eu tentei.

Marcos    – Eu vou indo, minha mãe deve estar me esperando.

Lúcia     – Não! Fica e almoça com a gente.

Marcos    – Eu posso?

Lúcia     – Pode! É lógico que pode, não é César?

César     – Pode, pode sim.

Marcos e Lúcia sentam a mesa. Os três começam a almoçar.

 

CENA 09. RANCHO DO PERSEU/SALA DE JANTAR/INTERIOR/TARDE:

A mesa posta, Marília sentada numa cadeira. Ela olha pro relógio da parede e bufa.

Marília   – Onde que esse homem tá, senhor? (pausa) Chega! Cansei dele.

Ela começa a almoçar.

 

CENA 10. BAR/EXTERIOR/TARDE:

Perseu está sentado num banco, bebendo. Ele bebe um, dois, três copos de cachaça.

 

CENA 11. RANCHO DO CÉSAR/COZINHA/INTERIOR/TARDE:

Lúcia e Marcos estão lavando a louça. César entra e se aproxima.

César     – Estão acabando aí?

Marcos    – Só falta mais um prato e dois copos.

Lúcia     – Está com pressa?

César     – Um pouco. Eu quero ficar sozinho com a minha recém noiva, Marcos.

Marcos    – É claro que quer. Eu não devia ter ficado pro almoço, sinto muito.

Lúcia     – Não, Marcos/

Marcos    – (corta) É sim, Lúcia. Eu claramente estou atrapalhando o casal.

Ele larga o prato na pia e sai da casa. Lúcia encara o César.

Lúcia     – Olha o que você fez!

César     – Eu só quero ficar mais perto da minha esposa, só isso.

Lúcia     – Não é só isso! Isso é preconceito, César.

César     – É preconceito não querer uma pessoa duvidosa dentro da minha casa?

Lúcia     – Duvidosa? Vá atrás dele e pede desculpas, agora!

César     – Droga!

César vai atrás, contrariado.

 

CENA 12. RANCHO DO CÉSAR/FRENTE À CASA/INTERIOR/TARDE:

Marcos está saindo e César o alcança. Eles se encaram.

César     – Não faz assim, Marcos.

Marcos    – Não faz assim, como? É óbvio que eu estou sendo um incomodo!

César     – Não está não. Eu me expressei mal, só quero ficar mais próximo da Lúcia.

Marcos    – Eu entendo, estou indo embora por isso.

César     – Não! Está indo embora porque acha que eu não gosto de você.

Marcos    – Não gosta?

César     – Como amigo, gosto. Você é amigo da Lúcia e é meu amigo.

Marcos    – Eu vou embora do mesmo jeito, quero deixar vocês dois sozinhos.

César     – Mas está tudo bem?

Marcos    – Está, é claro.

Marcos sai. César bufa e entra na casa.

 

CENA 13. BAR/INTERIOR/NOITE:

Anoitece.

Perseu está bebendo no bar. Marília entra no bar e se aproxima.

Perseu está com voz embriagada durante todo esse diálogo e nas cenas seguintes.

Marília   – Perseu? Eu sabia que você estava aqui.

Perseu    – O que está fazendo aqui?

Marília   – O que eu estou fazendo aqui? Você não veio almoçar e ficou bebendo com essa gentinha.

Ela desata de chorar.

Marília   – Eu estou cansada! Você está acabando com o nosso casamento

Perseu    – Você fala demais, Marília. Não dá! Cala a boca!

Marília   – Perseu! Venha pra casa comigo, Perseu.

Perseu    – Não!

Marília   – Eu tô te pedindo pelo amor de deus, se você ainda me ama e ama o nosso filho, venha comigo.

Perseu    – Chata! Isso é um saco, sabia?

Marília   – Você vem?

Perseu    – Estou indo, caramba.

Ele levanta, mas não consegue ficar em pé e logo caí. Marília chora mais.

Marília   – Você não consegue nem ficar em pé, Perseu.

Perseu    – Eu consigo sim. (ele levanta) Consegui!

Marília   – Então vem comigo. Nós vamos pra casa.

Ele se apoia nela e sai. Marília limpa as lágrimas, mas ainda chora.

 

CENA 14. RUA/EXTERIOR/NOITE:

Marília chora, carregando o marido. Ele não consegue se equilibrar direito.

 

CENA 15. RANCHO DO PERSEU/SALA DE ESTAR/INTERIOR/NOITE:

Marília e Perseu entram em casa. Ela larga o marido e ele consegue ficar em pé.

Marília   – Eu estou farta! Perseu, olha pra mim.

Perseu    – O que foi, caramba?

Marília   – Olha pra mim! Eu estou cansada, homem. Eu não posso mais deixar de comer e dormir por causa de você. Você precisa tomar jeito!

Perseu    – É crime querer beber com os amigos de vez em quando?

Marília   – Não é de vez em quando! É sempre! Todos os dias! Ou você me promete que essa foi a última vez ou/

Perseu    – (corta) Ou o que? Vai me deixar, vagabunda!

Marília   – Eu não posso deixar você fazer isso comigo, não posso.

Perseu    – E vai deixar o seu filho querido?

Marília   – Não, ele vem comigo. Não vou deixar você destruir a vida dele.

Perseu    – Ele não vai contigo! Ele é homem e precisa ser criado por um homem também.

Marília   – Ele é o meu filho!

Perseu    – E é meu também, vagabunda. (pausa) É isso mesmo o que você quer? Me deixar?

Marília   – Não porque eu te amo, mas eu não posso mais viver assim.

Perseu respira fundo e dá um tapão na Marília. Ela cai no chão. Ele se agacha e pega o cabelo da Marília.

Perseu    – Vagabunda de merda!

Marília   – Me solta!

Ele solta e se aproxima do sofá, sentando nele. Marília levanta e sobe as escadas, chorando muito.

 

CENA 16. RANCHO DO PERSEU/SUÍTE PRINCIPAL/INTERIOR/NOITE:

Marília está arrumando a mala, rápida. Ela chora enquanto faz. Marcos entra no quarto e se aproxima.

Marcos    – Mãe?

Marília   – Eu estou indo embora, Marcos, mas eu não posso te levar agora. Eu volto, eu juro.

Marcos    – Não me deixa sozinho com ele, mãe. Eu não vou aguentar.

Marília   – Eu não vou, eu vou voltar e vou te levar comigo.

Marcos    – Promete?

Marília   – Prometo! Juro! É sério, eu vou e vou voltar amanhã mesmo para te levar comigo.

Ela beija o filho e sai levando a mala. Marcos vai atrás.

 

CENA 17. RANCHO DO PERSEU/SALA DE ESTAR/INTERIOR/NOITE:

Perseu está deitado no sofá. Marília desce as escadas com a mala. Marcos a encara da escada. Ela abre a porta e sai.

 

 

FIM DO CAPÍTULO

Escrita por

Priscila Borges

Yuri Neves

Direção

Allan Sab

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4 comentários em “FALSO HORIZONTE | Primeiro Capítulo

  1. Depois do sucesso de O Novo Messias, eis que a PRI retorna com essa baita história. A original já era maravilhosa mas este remake tá do babado!! Parabéns minha amiga Priscila ❤

    #JaÉSucesso

  2. Parabéns, Priscila! Não te conheço. AINDA. mas vim te desejar tudo de bom com essa web maravilhosa que você adaptou, muito bem feita aliás. Eu li a original e você colocou traços seus, coisas suas e isso é importante. Deixou sua marca. Sucessos!

  3. PRI e YURI estou muito honrada de ter ficado responsável em postar essa belíssima obra… Desejo muito sucesso ao dois e parabenizo-os pelo excelente capítulo de estreia!!! Boa sorte nesta caminhada!

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